Pastores ciceroneando o poder

08.11.2016

 

 

Não é de hoje que tanto a imprensa tradicional quanto a alternativa publicam, em tom de denúncia, favores pouquíssimo republicanos recebidos do poder político por pastores e bispos e toda sorte de familiares e amigos atrelados a essas lideranças religiosas. As desejadas, e disputadas, concessões de radiodifusão já criaram uma rede de mídia evangélica com uma capilaridade de fazer inveja a muito empresário da comunicação. No entanto, recentemente, as atenções voltaram-se para “mimos" bem menos custosos ao poder público, mas que seguem favorecendo líderes que também frequentam os “cultos” das antessalas dos palácios. Trata-se da emissão, com aval do Itamaraty, de passaportes diplomáticos "às pessoas que (…) devam portá-lo em função do interesse do país", conforme o Parágrafo 3º do Art.6º do Decreto 5978/2006. Questione-se à vontade a subjetividade da expressão "interesse do país" e a sua relação com líderes evangélicos. O primeiro, e mais objetivo, ponto da questão é que um pastor comum, aquele a quem os crentes chamam às vezes de "pastor de igreja", não tem acesso a esse documento que serve de “passe-rápido" por alfândegas e imigrações mundo afora. É inegável que para ser considerado como alguém "em função do interesse do país", é preciso guiar, como um cicerone moderno, o poder político e suas autoridades pelos meandros do corpo social (e eleitoral) das igrejas.

 

A um cristão sincero, talvez, seja até difícil imaginar que tipo de conversa é travada para obter-se concessões de rádio e TV, isenções fiscais não usuais para instituições religiosas ou a indicação de um membro de igreja para um cargo público. Contudo, um segundo e mais complexo ponto do problema vai além do tráfico de influência para favorecimentos pessoais. O francês Jacques Ellul, um sociólogo e teólogo leigo, chamou essa aproximação da igreja com o poder político de "perversão política". Ainda que não seja recomendável comprar de uma vez todo o pacote fechado de Ellul, esse é um autor que levanta questionamentos importantes sobre as consequências da busca por influência política, seja por um viés conservador ou por um revolucionário. Sua tese primária é de que a "Bíblia nos traz uma mensagem que é contra o poder, contra o Estado e contra a política". Ellul enfatiza, no entanto, que seu tipo de "anarquismo" cristão nada tem a ver com o termo moderno do século XIX. Mas, o que deve estar claro à Igreja é que o Cristianismo não oferece justificação aos poderes políticos de quaisquer ordens, ao contrário, ele questiona-os constantemente.

 

Para reforçar o seu ponto, Ellul busca exemplo na experiência de Jesus sendo tentado por Satanás, que o oferece "todos os reinos desse mundo”. Jesus recusa-os, mas, segundo ele, por vezes a Igreja aceita-os. A igreja da Checoslováquia ungiu o comunismo e até Stalin começou a usar a Igreja Ortodoxa em 1943 como meio de propaganda. Aos que objetam a antipolítica de Ellul, dizendo que a Igreja usa a aliança política também para o evangelismo, para as boas obras e para pregar as Boas Novas, o sociólogo traz duras palavras: "O que era pura graça é então radicalmente subvertido numa política de dar e receber. (…) Satanás regozija-se em tudo isso. pois esse Evangelho não é baseado na pedra angular, em Jesus Cristo, mas no poder do mundo, graças ao qual ele é propagado. Não há nada aqui que o 'príncipe deste mundo’ precise temer".

 

É possível ainda sugerir que a Igreja corre hoje os mesmos riscos de ceder ao "Constantianismo" do Século IV – uma troca estranha ao Evangelho, onde a Igreja endossa o "imperador" e esse, por sua vez, investe-a de poder político e meios para exercer a sua missão no mundo. Pastores receberam favores políticos e mimos de Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer. Os dois últimos, somados a Alckmin e Haddad, prestigiaram com suas presenças a inauguração do controverso Templo de Salomão da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo. Lula falou nos 150 anos da Igreja Presbiteriana do Brasil. De dentro de sua catedral, onde também estavam o então governador do estado do Rio, Sergio Cabral, e o prefeito da Cidade, Eduardo Paes, o ex-presidente exaltou os esforços presbiterianos para difundir os preceitos cristãos em solo brasileiro. O senador petista Lindberg Farias emocionou-se em visitas à Assembleia de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus nas eleições de 2014. Presenças, falas e apoios sinceros? Pergunta semelhante se faz até hoje sobre a discutível conversão do imperador Constantino ao Cristianismo. Difícil responder. Mais interessam as perguntas: Por que ciceronear a política pelos corredores da Igreja? O que pastores e políticos querem com isso? Certo nesta resposta é que essa é uma troca de ganha-ganha.

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