Por que os negócios importam para Deus?

08.11.2016

 

 

Ray Kroc, criador da rede McDonald’s como a conhecemos hoje, certa vez escreveu: “Eu acredito em Deus, na família e no McDonald’s – e no escritório, esta ordem é invertida. Se você está correndo os 100 metros rasos, você não está pensando em Deus enquanto corre. Não se você espera vencer. Sua mente está na corrida. Minha corrida é o McDonald’s”. Seu pensamento revela duas percepções comuns. Primeiro, fé e negócios são como água e óleo, não se misturam e, segundo, mesmo que essa mistura fosse possível, a um livro como a Bíblia teria pouco a acrescentar ao mundo empresarial. Exceto, talvez, com um pouco de ética ou motivação pessoal. Fato é que a nossa visão de mundo e sobre o papel que os negócios têm estão baseados, conscientemente ou não, na compreensão de quem nós somos – nossa essência – e para que estamos aqui – nosso propósito.

 

A Bíblia aborda essas questões na narrativa da criação, localizada nos seus dois capítulos iniciais. Para a fé cristã, a natureza e o propósito do ser humano estão baseados no fato de que fomos criados à imagem de Deus. No mundo antigo, uma imagem ou ídolo era muito mais do que uma representação gráfica de uma divindade, pois trazia em si também a essência de quem representava. Ser imagem de Deus significa que, apesar das nossas limitações, possuímos uma semelhança exclusiva com Deus. Um ser que no relato da criação trabalha, criando e organizando, bem como descansa. Embora o conceito de ser humano como portador da imagem de Deus seja mais amplo, ele certamente inclui trabalhar, exercer criatividade e organizar o mundo.

 

Além disso, no Antigo Oriente Próximo era por meio de uma imagem que a divindade realizava seus propósitos, o que sugere que o ser humano foi criado por Deus para ser seu representante oficial no mundo. Assim, o humano é mais que um mordomo – como por vezes convencionou-se explicar; ele é um vice-rei que foi posto para “dominar” e “subjugar” a Terra (Gn. 1:28), sempre de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo Rei, no caso, Deus. Portanto, esse domínio não é opressivo, pois ele explicitamente envolve “cuidar” e “cultivar” o mundo, como se fosse um jardim (Gn.2:15). Pensando assim, uma empresa não é um mero empreendimento humano, mas uma forma de nós executarmos os propósitos de Deus no mundo, se o fizermos do jeito dele.

 

Empresas têm uma capacidade única de fornecer o que necessitamos para cumprirmos a ordem de “Sejam férteis e multipliquem-se. Encham a Terra!” (Gn. 1:28). E uma vez que o empregador ou detentor do capital é também portador da imagem de Deus, empresas precisam igualmente ter a responsabilidade de oferecer trabalho digno e criativo, bem como garantir o devido descanso dos seus colaboradores e o bom cultivo do espaço que as cerca. Seguindo esse raciocínio, Jeff Van Duzer, reitor da Seattle Pacific University, propõe que as empresas têm dois propósitos legítimos e intrínsecos. Externamente, seu propósito é fornecer à comunidade produtos e serviços que estimulam o seu florescimento e melhoram a qualidade de vida de todos. Internamente, seu propósito é fornecer oportunidades para o exercício da vocação e criatividade de todos os seus colaboradores.

 

 

A partir desta visão pode-se enumerar algumas implicações práticas:

 

1) Trabalhar tem valor intrínseco, e não apenas instrumental. O local de trabalho não obtém seu valor por ser uma possível plataforma evangelística. Os próprios produtos e serviços em si são importantes, pois fazem parte dos propósitos de Deus; 

 

2) O objetivo de uma empresa deixa de ser o lucro, apenas, e passa a ser servir tanto clientes, como funcionários. O lucro torna-se um meio para promover o bem-estar das pessoas envolvidas;

 

3) Empresas têm não só a capacidade, como também a responsabilidade de gerar riqueza de forma sustentável e eficiente, a fim de financiar outras instituições necessárias ao florescimento humano, mas que frequentemente são financeiramente deficitárias, por exemplo, escolas e hospitais.

 

Não se deve ignorar que o mundo corporativo apresenta problemas, mas deve-se crer que a recuperação da esperança e de um senso de propósito são necessárias para inspirar mudanças positivas. Elas podem acontecer, se for contemplada uma visão diferente do mundo empresarial, em que ele é um cooperador de Deus, a ser redimido; em vez de um opressor, a ser demonizado. Isso certamente requer muito, muito trabalho, mas como disse um certo judeu: “meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5:17).

 

 

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