Um chamado à integralidade

10.11.2016

 

 

Se caminharmos por uma rua em qualquer cidade moderna, vemos todo mundo na correria. Os minutos parecem ser tão preciosos que as pessoas não só caminham, mas também comunicam-se com os outros nos seus smartphones. Essas pessoas se apressam com companheiros invisíveis para chegar a algum lugar. Por que todo mundo está sempre com pressa? Por que nossos jovens não param de enviar mensagens de texto e e-mails? Infelizmente, a verdade é que esta pressa não é em direção a algo, mas para longe de alguma coisa. Estamos fugindo de qualquer tipo de solidão que nos colocará em nossa própria companhia. Mas por que desejamos evitar a nós mesmos?

 

Tal fuga tem frequentemente caracterizado os seres humanos. Isso levou muitos filósofos a considerar:  O que vai fazer com que as pessoas desacelerem e caminhem calmamente? O que é que vai trazer-lhes paz e serenidade? Como podemos ensinar as pessoas a saberem quem são e a terem prazer nesse conhecimento? Como transformamos rostos apressados e carrancudos em rostos sorridentes e satisfeitos? O que, em outras palavras, vai fazer as pessoas felizes? Platão, em seus Diálogos, especialmente na República, deu talvez a melhor resposta filosófica. As pessoas precisam perceber em primeiro lugar que há algo imortal em cada ser humano, que as partes essenciais da nossa personalidade sobrevivem à morte. Elas precisam aprender que essa personalidade é algo lindo em si mesmo. Ainda mais importante, elas precisam perceber que a sua felicidade está em permitir que esta personalidade crie o belo. Sim, somente somos felizes quando estamos criando algo belo.

 

Aqui, Platão deixa claro que esse ‘belo’ pode ser de uma natureza variada e múltipla. Cada pessoa precisa honestamente se perguntar: “O que é que eu faço que me traz a maior alegria?” A mãe cuida dos seus filhos. O cantor lírico se apresenta na ópera. O pianista descobre Chopin. O motorista do ônibus faz o seu caminho perfeitamente pelo trânsito. O mecânico conserta carros. A dentista restaura dentes. O médico cura. O banqueiro administra dinheiro. Os chefs cozinham. A enfermeira cuida do doente. São tantas, tantas, atividades diferentes! Platão disse que, se essa atividade traz alegria e realização, então é isso que uma pessoa deve fazer e é isso que vai fazer essa pessoa feliz.

 

À medida que o Cristianismo se desenvolvia, absorveu muitas ideias de Platão sobre a nobreza da personalidade humana e a importância dessa personalidade para a felicidade da pessoa. Mas o Cristianismo elevou o ideal platônico a um nível mais alto. Platão disse que os seres humanos são chamados a permitir que as suas personalidades encontrem plena expressão ao criar o belo. Mas essas personalidades agora podem ser redimidas, transformadas pelo sacrifício do Filho de Deus na cruz, e capazes de manifestar o Espírito de Deus. O Cristianismo enfatiza a dignidade de cada pessoa humana. Ele reconhece o propósito e significado de cada vida humana. Cada pessoa é chamada para criar o belo da sua maneira singular como uma forma de edificar o Reino de Deus. Todos têm uma contribuição a dar, não importa a sua grandeza ou humildade.

 

No Século V, Benedito introduziu um modo de vida cujo lema era "ora et labora", isto é, "ore e trabalhe." Mas o significado desse lema é bem mais profundo do que suas palavras. Os seres humanos são chamados à felicidade ao permitirem que suas personalidades criem o belo. Mas como é que as pessoas saberão qual atividade lhes trará alegria? Eles precisam descobrir quem eles são, pondo de lado temporariamente todo o ruído interminável e pressa de suas vidas. Pessoas modernas temem o silêncio porque eles têm medo de encarar a si mesmos. Mas o  Cristianismo removeu qualquer causa para o medo. Cada pessoa foi resgatada e está sendo transformada, a cada dia, na semelhança do Filho de Deus. Quando as pessoas percebem que sua personalidade mais profunda foi renovada, elas podem sentar-se em sossego, sem medo ou inquietação. E, quando o fazem, eles descobrem no fundo do seu coração uma paz e alegria em quem eles são.

 

Esta descoberta, quando conduz a uma expressão de gratidão, é o que Benedito chama de "oração". Nós não construímos a nós mesmos! Descobrimo-nos dentro de uma "pérola de grande valor." Nossas personalidades, através do sacrifício de Jesus, foram curadas. É sobre este fundamento de alegria de quem nós somos que o nosso "trabalho" deve ser construído. O trabalho é para ser um fluir das maneiras que as pessoas podem criar o belo. O trabalho é para trazer grande prazer às pessoas porque eles estão fazendo exatamente o que sua personalidade mais profunda é chamada a fazer. Quando o "trabalho" é feito desta forma, ele começa a transformar comunidades e locais de trabalho.

 

Que imagem diferente Benedito nos dá sobre trabalho daquela que encontramos na maioria das vezes no mundo moderno! Esse mundo nos ensina que trabalhamos para ganhar dinheiro, para adquirir bens, ou para obter poder. Corremos pelas ruas da nossas cidades modernas, apressados para irmos aonde os nossos corações não estão satisfeitos. O Cristianismo ensina que nós trabalhamos para criar o belo, para permitir que o Espírito de Deus que habita em nós erga qualquer atividade que venhamos a executar a um nível significativo e elevado. E, em um espírito de gratidão, nosso trabalho torna-se oração; e a nossa oração, trabalho.

 

 

 

 

Dra. Shirley Sullivan é membro eleita da Royal Society of Canada, professora emérita de Estudos Clássicos na Universidade da Colúmbia Britânica e leciona Latim Eclesiástico no Regent College.

 

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