'É que Narciso acha feio o que não é espelho'

05.01.2017

 

Pessoas compartilhando seu prato no almoço de hoje, longos textos pessoais respondendo questões nunca perguntadas, acesso frequente para checar – mais uma vez – se o último post recebeu outra “curtida”. Eu te sigo e você me segue de volta. Se eu te marco em uma foto, é para você “curtir” o mais rápido possível (afinal, seu celular vive no seu bolso, você está conectado o tempo todo, e eu posso ver o seu status). Comentários são sempre bem-vindos. No entanto, bloqueio pessoas das quais discordo. Se qualquer rede social alertar sobre o aniversário de alguém, não telefone (que coisa mais de antigamente!) Pode soar invasivo ou exagerado. Use um emoji pré-selecionado e poste uma curta mensagem na timeline da pessoa. Sorrisos, viagens, dicas, comida, gente bonita, selfies, e até nudes – a modinha de enviar fotos sem roupa para alguém com quem você topa brincar online, mas sem necessariamente querer manter um relacionamento pessoal – são para serem compartilhados. Por último, não conte a ninguém que você gasta horas fuxicando a vida alheia. A maioria das pessoas faz o mesmo, mas não é educado ser honesto sobre isso.

 

Diante dessa genérica descrição, não é necessário ser um intenso usuário de mídias sociais para perceber que embora bilhões estejam conectados através das redes, um ethos bem específico tem sido desenvolvido para a vida virtual. Vale ressaltar, contudo, que uma perspectiva “tecnofóbica” sobre a internet e as mídias sociais parece ser inútil. É preciso reconhecer que grande parte da população mundial tem acesso barato e rápido a uma riqueza de informações como nunca antes. As redes têm tido um papel importante nas mudanças da sociedade civil, alterando a forma de desafiar, contestar e cobrar autoridades através da tecnologia. Tamanha novidade, no entanto, segue incompreendida. A nova geração de pais, por exemplo, é a última a ter crescido num ambiente desconectado. As crianças de hoje já são digitais, conectadas e mais indoors. E não adianta sugerir uma comparação com a relação da geração dos anos 80-90 com a TV. Diferentemente da televisão, celulares e tablets não estão fixos num móvel, parados num cômodo. Eles vão até para cama e ficam ligados 24 horas por dia. No primeiro semestre de 2016, o Facebook divulgou que, em média, seus 1,65 bilhão de usuários já gastam 50 minutos por dia nesta rede social. É mais do que o americano gasta diariamente com leitura (19 minutos), com exercícios (17), ou eventos sociais (4).

 

Professor sênior de Psicologia no Fuller Theological Seminary na Califórnia, Archibald Hart, alerta: “Sejamos francos. Nós ainda sabemos muito pouco sobre quais serão as consequências físicas, relacionais, emocionais e espirituais da extrema exposição à invasão digital ao longo do tempo.” Pesquisas começam a mostrar resultados perturbadores. Soraya Mehdizadeh da York University em Toronto, Canadá, concluiu que pessoas viciadas em Facebook tendem a ser mais narcisistas e inseguras. Indivíduos com alto grau de narcisismo e baixa autoestima gastam mais tempo enchendo seus perfis com conteúdo autopromocional. Então, surgem as questões: Nesses perfis cuidadosamente construídos, as representações do indivíduo são precisas ou não passam de projeções do que ele gostaria de ser? Estaríamos usando redes sociais para tentar elevar nossa autoestima?

 

Um crítico mordaz dos impactos da tecnologia sobre os relacionamentos, o sociólogo francês Jacques Ellul nunca acreditou na neutralidade das invencionices humanas ou considerou-as meras ferramentas, como preferem os mais entusiastas. No livro A Técnica e o Desafio do Século ele escreve que o homem foi feito para andar a seis quilômetros por hora e para dormir quando está com sono; agora, movimenta-se muito mais rápido e obedece a um relógio. Foi feito para ter contato com coisas vivas, mas vive num mundo de pedras. Criado com certo senso de unidade, ele está fragmentado por todas as forças da modernidade. Se considerarmos que esses são pensamentos escritos há mais de 60 anos, Ellul chega a soar profético. Seríamos feitos para manter centenas e até milhares de ‘amigos’? Somos capazes de sustentar comunicação instantânea, não planejada – às vezes, sequer desejada – e múltipla o tempo todo? O que acontece com a psique e com o comportamento do indivíduo que sabe que seu perfil pode ser conferido por praticamente qualquer um e a qualquer hora? Somos feitos para viver uma vida de pouquíssima privacidade?

 

No clássico A Cultura do Narcisismo, o crítico social Christopher Lasch atribui ao narcisismo a perda do “desinteressado amor pelo estranho”. Para ele, o aumento dos diagnósticos de doenças do caráter na nossa sociedade e cultura advém da burocracia, da proliferação das imagens, da racionalização da vida interior, do culto ao consumo e, em última análise, das mudanças na família e nas características de socialização. Aqui, o neomarxista e os cristãos estão ombreados. Presença e relacionamento são ‘solo sagrado’ para os da fé. Toda a narrativa cristã pode ser sintetizada em o próprio Deus fazendo-se presente e relacionando-se com homens e mulheres. A instrução é olhar para cima, para o outro, para dentro, mas exibir-se muito pouco, já que há risco de apaixonar-se pela própria imagem. Até Caetano advertiu em seus versos que Narciso perigava não mais enxergar beleza fora da sua própria imagem e conceitos.

 

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