O cristão e o capitalismo

12.05.2017

 

O capitalismo apresenta um paradoxo aos cristãos: ao mesmo tempo em que o sistema demonstra inigualável eficiência no que se refere à produção e gerenciamento de recursos, sua própria essência alimenta o veloz processo de secularização da sociedade exatamente porque a abundância material rouba a atenção antes dedicada ao desenvolvimento de virtudes e força moral. Dessa forma, o envolvimento dos cristãos com o capitalismo é constantemente posto em cheque. Mas, se por um lado apenas criticar o sistema produz pouca – ou nenhuma – mudança efetiva; por outro, defender e assimilar a ideologia da economia de mercado indiscriminadamente tira da igreja sua capacidade profética como agente de justiça. Uma postura adequada deve no mínimo levar os cristãos a um engajamento consciente, que faz o melhor uso da situação econômica na qual nos encontramos e que baseia-se na ação redentora de Jesus em todas as esferas da vida.

 

Primeiramente, é preciso reconhecer os efeitos notavelmente positivos trazidos pelo capitalismo. Comparando com todos os outros períodos registrados acerca da atividade humana, salvo raras exceções, nenhum outro sistema de produção e trocas viabilizou como o capitalismo moderno o alongamento da expectativa de vida, a redução da incidência de doenças fatais, a melhoria das condições de vida, a expansão da alfabetização e educação e, de certa forma, o aumento de privacidade e escolha pessoal. A fonte de tamanha produtividade pode ser explicada por dois componentes principais: o “espírito do capitalismo”, teorizado pelo sociólogo Max Weber, e a “métrica monetária”, explicada pelo professor de Estudos Interdisciplinares do Regent College, no Canadá, Craig Gay.

 

Para Weber, o protestantismo calvinista deu origem a uma nova forma de ver a vida: mais prática e baseada na crença de que o mundo deveria ser moldado de forma a espelhar a vontade revelada de Deus. Em outras palavras, a combinação de um estilo de vida simples a uma ética de trabalho diligente incentivados pelo calvinismo teriam dado origem à primeira versão prática e racional do acúmulo de capital. Num contexto no qual a atividade econômica florescia e começava cada vez mais a fazer parte da vida das pessoas, eram necessários instrumentos que unificassem a linguagem entre fornecedores e consumidores. O dinheiro passou então a ter um papel cada vez mais significativo, não apenas como operador da lógica econômica, mas também como parâmetro das relações sociais. O dinheiro se tornou a unidade absoluta segundo a qual todo o resto é medido – nascia, assim, a métrica monetária proposta por Craig Gay. O fenômeno representou o avanço na habilidade de dominar as circunstâncias materiais por meio da racionalização da produção, distribuição, e consumo de bens e serviços. Combinado aos avanços da ciência e tecnologia, o sistema de mercado deu origem ao que hoje reconhecemos como um sistema de produção em massa que traz a sedutora promessa de amplo controle sobre diversas áreas da vida cotidiana.

 

Mas nem tudo são flores no mundo do mercado livre. Ao considerar seus efeitos indesejados, é importante, contudo, lembrar que o capitalismo nunca foi imaginado como um sistema ideal. Além dos impactos óbvios sobre o ambiente e sobre a vida material em geral, seus custos afetam também os reinos cultural, psicológico e até espiritual. Por meio da exaltação da métrica monetária, nós nos perdemos no meio da abundância material e acabamos abandonando as aspirações genuínas por um mundo melhor. Mas como isso aconteceu? Na superfície, as razões mais aparentes são o efeito da abundância sobre valores tradicionais (particularmente religiosos) e o poder do sistema em orientar pessoas de acordo com suas promessas de bens exteriores, controle e autonomia. Em outras palavras, no livre mercado pessoas são convidadas a focar sua atenção nos produtos de suas atividades em vez de olharem para qualquer tipo de virtude interior que constitui a base de suas motivações.

 

Indo mais fundo, é possível associar os efeitos do capitalismo ao conceito de “destruição criativa”, desenvolvido pelo economista austríaco Joseph Schumpeter, para explicar que o processo de racionalização proposto pelo capitalismo está sempre a encorajar um desenvolvimento tecnológico ininterrupto e extraordinário ao mesmo tempo em que dá suporte à plausibilidade do secularismo, materialismo, utilitarismo e finalmente niilismo, que em sua essência desvalorizam o sentido e a finalidade da vida. Assim, embora o sistema entregue os benefícios materiais que promete, ele também drena a substância de todo o significado e crença que vão muito além do conforto e do progresso estritamente material.

 

A pergunta que resta diante de tamanho paradoxo é: Há alguma coisa que possa ser feita, afinal? Muitos, incluindo o autor desse texto, acreditam que sim. Em resumo, por amor a Deus, sua lei, e por amor ao próximo, devemos buscar driblar e minimizar os efeitos indesejados do capitalismo, reconhecendo, contudo, que não há hoje um sistema econômico que seja mais eficiente na tarefa de garantir ao mesmo tempo a qualidade de vida em escala e o respeito ao indivíduo. Craig Gay resume: “A ética social cristã, no fim das contas, é sempre baseada no ato de tentar se fazer o melhor de uma situação ruim.” Isso deve ser feito, primeiramente, não por meio da criação de novos valores, mas por meio da recuperação de uma forma de enxergar o mundo que permita às pessoas capturarem o valor real das coisas. Ao recuperar o conceito de graça e, logo, voltar a enxergar que a vida, o trabalho, e tudo o que vem deles são, em última instância, dádivas de Deus nos fará mais capazes de evitar que a métrica monetária consuma toda a substância de nossa cultura.

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