O caos político e o lamento de João

08.06.2017

 

O caos político no Brasil tornou-se tão evidente que para muitos a década já é considerada política e economicamente perdida. A condição é desoladora, pois as recentes colaborações com a justiça mostraram que praticamente todo o espectro político está  moralmente comprometido e, logo, a desconfiança é geral. No entanto, da confusão emergem muitas vozes e inúmeras soluções para nossa atual desgraça. Propostas de reestruturação, mesmo quando complexas, aparecem como solução revolucionária e definitiva. A decepção com a política, contudo, não é moderna e a desconfiança sobre ela pode ser vista na Bíblia. Nela, um livro nos serve como emblema sobre desilusão política global: o Apocalipse de João. O pesquisador de Novo Testamento da Universidade de Cambridge, Richard Bauckham, diz que o livro é que há de mais próximo de um tratado cristão sobre política.

 

Nesse texto, o apóstolo João é introduzido na esfera celestial, onde encontra Deus sentado em Seu trono e, em Suas mãos, um rolo selado (Ap. 5:1). Na antiguidade, rolos como esses, escritos em ambos os lados, representavam os decretos reais e como os mesmos seriam efetuados. Ao saber que não havia quem fosse digno de abrir tal decreto, João pôs-se a chorar profundamente (Ap. 5:4). A partir daí, é importante visualizar o mundo refletido nas lágrimas de João. O Império Romano ao redor do apóstolo não era muito mais honroso que as instituições políticas brasileiras nos nossos tempos. A tradição de assassinatos na corte de Calígula e Nero nos anos 50 e 60 A.D., a matança da resistência judaica pelo imperador Vespasiano em 70 A.D. e a perpetuação de corrupção em troca de favores de senadores no fim do primeiro século demonstram o que os poderes políticos são capazes de realizar.

 

Num contexto de política à deriva, o apóstolo João chora, pois a impossibilidade da abertura do rolo selado tem apenas um significado: não há recursos humanos capazes de trazer as promessas divinas de justiça e bem-estar para o mundo real. Há um grande abismo entre o trono divino e o chão dos cidadãos oprimidos. A brutalidade e corrupção do imperador romano não podem ser impedidas por um só indivíduo, por um movimento social e, muito menos, por um simples prisioneiro cristão. As reivindicações de poder universal por parte do imperador continuam incontestadas. A fome e as epidemias seguem desamparadas pelos luxuosos senadores. A escravidão e a marginalização continuam invisíveis. O império rodopia vestido de injustiça, rumando cada vez mais ao caos.

 

Contudo, talvez no pranto do apóstolo esteja a semente do que significa agir politicamente a partir de uma perspectiva cristã. Qualquer reflexão ou práxis, social ou política, não se inicia com estratégia. Antes de qualquer sentença bem dita, deve haver um lamento perplexo e sem palavras. Não apenas o lamento pela injustiça colossal que continua acometendo as mais diversas populações no Brasil, mas deve haver um lamento mais profundo: aquele feito perante a limitação de qualquer personagem ou projeto ideológico de trazer a efeito o projeto de Deus de bonança para o universo. “Não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que pudesse abrir o livro, ou sequer olhar para ele” (Ap. 5:3). Não há nenhum substituto definitivo adequado para se assentar em Roma ou Brasília e que possa desatar o rolo. Na melhor das hipóteses, o assassinato ou o destronar do atual governante trará uma boa opção temporária. Nenhum programa partidário é capaz de abrir as mãos dAquele que se assenta sobre o trono – estabelecendo o Seu Reino – como supôs erroneamente a revolta extremista judaica em 66-70 A.D. O melhor dos partidos ou reformas será apenas um estágio intermediário. Todo messianismo desaba ao som do choro do apóstolo João.

 

Do ponto de vista da fé cristã, se alguém deseja ter qualquer ação transformadora no ambiente social e político, deve primeiro matricular-se na escola do lamento, “chorar com os que choram”. Obviamente, isso não significa desaguar num mero desespero niilista, mas sim, discernir os falsos messias. Toda agenda sociopolítica dos homens que se aproxima do absolutismo de César torna-se uma simples paródia do Reino de Deus. Por trás de slogans e mantras políticos, cada ideologia ainda possui pontos-cegos, limites e até injustiças tidas como “necessárias” para o seu estabelecimento. Esses pontos-cegos devem ser expostos com lamento por quem entende que a palavra final ainda é dAquele que está no trono. Para os que pranteiam com João, há uma voz que os arremessa para fora das paródias políticas e os auxilia a visualizar além dos projetos ideológicos humanos: “Não chore! Veja que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos!”

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