Perdoe-me, Google, pois eu pequei

17.07.2017

 

A frase “Everybody lies” (Todo mundo mente) ficou conhecida como o lema do Dr. Gregory House, da série de TV, mas ganha nova dimensão com o lançamento do livro de mesmo título escrito por Seth Stephens-Davidowits. Ex-analista de dados do Google e filósofo com PhD em Economia em Harvard, Stephens-Davidowits, tenta compreender o comportamento humano com base nos 8 trilhões de gigabytes de dados disponíveis na internet. Segundo ele, não se pode fazer esse tipo de pesquisa com o que as pessoas postam nas redes sociais, já que, a fim de impressionar seus amigos, ou até mesmo estranhos, elas tendem a apresentar uma versão editada de si mesmas. Até mesmo a tradicional pesquisa de campo deve ser usada com cuidado, pois nesse contexto também sentimo-nos impelidos a dar uma resposta socialmente aceitável. Contudo, é possível ter uma boa noção do que as pessoas realmente pensam através do que é pesquisado na internet. Aquilo que temos vergonha ou medo de admitir em público, contamos ao Google ao fazermos nossas buscas. Dessa forma, o Google vem se tornando um dos principais depósitos de nossos segredos mais escuros, um verdadeiro armário digital de esqueletos, e que se viessem a escapar não poupariam a ninguém.

 

Segundo Stephens-Davidowits, muitos internautas escrevem desabafos em frases inteiras sobre coisas que certamente a ferramenta de busca é incapaz de ajudar tendo em vista a alta carga emocional e/ou irracional da pesquisa. Mas por que buscar respostas para nossos dilemas éticos e existenciais ali, e não mais num tipo de padre ou num amigo? Para o filósofo canadense Charles Taylor, em seu tomo Uma Era Secular, o ser humano pré-moderno era dotado de um ‘self poroso’, vulnerável e aberto a uma realidade exterior, indo de Deus até maldições e demônios. O ser humano moderno, contudo, é dotado de um ‘self protegido’, impermeável ou blindado dessa realidade. O processo de desencantamento, mais do que eliminar o sobrenatural reduzindo tudo ao natural, teria então alterado o ‘local’ de onde derivamos o significado das coisas. Antes, ele era externo a nós, vindo de alguma fonte de autoridade ou senso de transcendência, mas que agora reside dentro de nós. E, assim, o Google passa a receber aquilo que antes era destinado à transcendência.

 

Mas por que o buscador atenderia essa demanda por um confessionário? O próprio Stephens-Davidowits sugere que isso seja um resquício do catolicismo. De fato, a prática da confissão faz parte espiritualidade judaico-cristã há milênios. Davi, conhecido por suas orações de confissão, afirma que a pessoa verdadeiramente feliz e realizada é aquela que foi perdoada. Contudo, para que a confissão possa de fato ter esse valor terapêutico, duas coisas são necessárias: Primeiro, é preciso reconhecer que existe culpa legítima, que quebramos um padrão externo, e que em última análise vem do nosso Criador. Davi, ao confessar seu pecado, reconhece que a sentença de Deus contra ele é justa, e que Deus tem o direito de condená-lo (Sl. 51:3-4). No mais, é preciso ainda fazer distinção entre arrependimento e remorso. Muitas pessoas estão tristes ou insatisfeitas com o atual quadro da sua vida, até enxergam a inconveniência dos seus erros e o perigo de continuarem a viver desse jeito, contudo, se pudessem, manteriam seu estilo de vida autodestrutivo. O rei Davi compara essa postura a de um cavalo ou burro que só anda no caminho certo devido a dor causada pelos freios e rédeas, e não porque entenderam que esse é de fato o melhor curso de ação a seguir (Sl 32:9).

 

A prática de confissão tipicamente evangélica, quando existe, é bem mais individual do que coletiva. Mesmo nos momentos em que ela é estimulada, como antes da Santa Ceia, ainda é um momento entre “você e Deus”. Por outro lado, a Carta de Tiago nos orienta a confessarmos nossos pecados uns aos outros a fim de obtermos cura (5:16). Trata-se de um lembrete da importância do reconhecimento público do nosso pecado. A intenção da confissão coletiva não é que todos saibam os segredos de todos, mas que sejamos semanalmente lembrados das nossas falhas, fraquezas, limitações e incapacidades. Não se trata de masoquismo ou autocomiseração, oriundos de uma baixa autoestima, mas da busca por cura e felicidade, como um trecho de um antigo livro de orações comunitárias — Common Worship (Adoração comum) — demonstra:

 

“Deus rico em misericórdia, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, nós confessamos que temos pecado em pensamentos, palavras e ações. Nós não te amamos com todo o nosso coração. Nós não amamos nosso próximo como a nós mesmos. Pela tua misericórdia, perdoa o que temos sido, ajuda-nos a reparar o que somos, e dirija o que haveremos de ser; para que possamos praticar justiça, amar a misericórdia, e andar humildemente contigo, nosso Deus.”

 

Limitar a nossa confissão a momentos a sós com o Google significa estarmos fadados a sermos autônomos (do grego autos = ‘si mesmo’ e nomos = 'lei'), pois somos obrigados a estabelecer leis e padrões morais para nós mesmos, em vez de depender de algum padrão externo, seja ele religioso ou social. No entanto, as descobertas de Stephens-Davidowits sugerem que não conseguimos viver de acordo com os nossos próprios padrões, que não somos tudo o que aspiramos ser e que não queremos que os outros nos vejam como realmente somos. Podemos negar a existência de padrões externos, mas quando nos voltamos a mecanismos de busca para encontrarmos respostas e afirmação, estamos reconhecendo — embora inconscientemente — que não somos tão “blindados” quanto gostaríamos. No fundo, queremos confessar, nem que seja ao Google!

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