500 anos de Reforma Protestante: A ética protestante e o espírito do ateísmo

02.08.2018

 

Subestimar ou superestimar a influência da Reforma Protestante na formação do mundo em que vivemos são duas faces de uma mesma moeda. É comum ver uns tentando exorcizar qualquer influência cristã na cultura contemporânea, como se fosse um demônio; e outros apregoando uma Reforma redentora, como se essa tivesse apenas espalhado a beleza e as vivas cores das tulipas mundo afora. Passados quase 501 anos do estopim reformador é possível dizer que o que se fez com as ideias de Lutero, Calvino e cia. – todos tão humanos quanto nós – também gerou resultados “negativos”.

 

A ideia de que a Reforma Protestante trouxe boas e más consequências não é nova. Esta tese encontra eco no importante trabalho do alemão Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, na qual o sociólogo argumenta que os embasamentos espiritual, ético, e psicológico do capitalismo moderno têm origem direta na ética protestante, especialmente a partir da sua vertente calvinista. Contudo, antes que os mais entusiasmados pronunciem um "amém", é fundamental ressaltar que esta influência nem sempre foi positiva. Weber defende que uma das causas para o florescimento do capitalismo foi a intensa ansiedade gerada pela doutrina da (dupla) eleição. Nela, o destino eterno de cada indivíduo – salvação ou perdição – é determinado exclusivamente por Deus e é impossível discernir com certeza quem vai para onde. A fim de amenizar a angústia, coube a cada um adotar uma postura de abnegação com relação ao mundo (ascetismo) e uma extrema racionalização da conduta profissional. Mesmo depois de ser libertado da “segurança” trazida pela mágica das indulgências, o crente comum continuou temendo muito o inferno. Quebrar o encanto do cristianismo medieval não foi suficiente para trazer paz aos corações.​

 

No vácuo desse desencantamento trazido pela Reforma, surge, por exemplo, a ciência como a conhecemos hoje. De acordo com o Craig M. Gay, professor de Estudos Interdisciplinares no Regent College, Canadá, “a crítica dos reformadores ao misticismo medieval e a rejeição ao escolasticismo foram fundamentais para o surgimento da ciência moderna”. Mas, de novo, antes de soltar rojões, herdeiros contemporâneos da Reforma precisam saber que ao rejeitar o escolasticismo medieval gera-se uma mentalidade na qual reflexões teológicas são irrelevantes para a obtenção do conhecimento científico. O resultado final é o surgimento de uma narrativa científica que não é apenas paralela ao Cristianismo, mas compete com ele. Assim, versões cristãs para o que é o mundo, como foi criado, quem são os seres humanos, o que é o mal, o sofrimento ou o bem, são só algumas das explicações possíveis. Estão ao lado de uma pluralidade de outras explicações, e não são sequer tomadas como as mais plausíveis.

 

Junto do asceticismo angustiante e das metanarrativas exclusivamente científicas, surge um terceiro elemento secular à vida cotidiana moderna: a privatização da fé. Seguindo o impulso dado pelo protestantismo, e recebendo posterior estímulo da globalização, a fé deixou de ser imposta pelo Estado e Igreja e passou a ser uma questão de preferência individual. As guerras religiosas que eclodiram na Europa pós-reforma consolidaram divisões, na medida em que a paz foi selada com a concordância de que os recém-criados Estados-Nação estariam livres para adotar o catolicismo ou o protestantismo dentro de suas fronteiras de acordo com a preferência de cada rei. Após anos de guerra, a solução – e um desdobramento natural do individualismo humanista – estava em manifestar a fé, principal e preferencialmente, no âmbito privado. Esta divisão entre vida pública e fé privada enfraqueceu a plausibilidade e legitimidade do Cristianismo em muitas sociedades, relegando-o à posição de mais uma entre outras religiões, competindo pela fidelidade dos indivíduos. Não à toa a lógica de consumo adentrou nas igrejas. Quando há um universo plural de narrativas e práticas que respondem e atendem às demandas do indivíduo que crê, todas competindo pela preferência dos fiéis, é natural que os diferentes grupos religiosos adotem estratégias de mercado para tornar sua fé mais atraente aos de fora.

 

Assim, concluímos que desencantamento, pluralização e privatização da fé constituem os elementos básicos da secularização. Esta perda de influência da religião sobre as variadas esferas da vida social gerou um mundo em que somos diariamente tentados a viver como se Deus fosse irrelevante, adotando, nas palavras de Craig Gay, um “ateísmo prático”. Não é sequer preciso que Deus não exista, pois, mesmo existindo, tal ideia não traz vantagem alguma nos nossos afazeres cotidianos. A grande ironia, portanto, está no fato de que as sementes que deram origem a cada um destes elementos foram lançadas, de uma forma ou de outra, pela Reforma Protestante. Pode-se dizer que todos os aspectos negativos listados acima não são resultado do pensamento reformado, mas de uma interpretação equivocada das ideias da Reforma e dos seus imponderáveis desdobramentos. Sim! Mas seria loucura sugerir que a solução para tais dilemas está em retornar a uma hipotética “Era de Ouro” do protestantismo reformado. Em nenhum tempo ou local o protestantismo fez tudo andar certo. Suas colaborações à cultura, ciência, economia, sistema jurídico, trabalho são inegáveis. Porém, para seguir contribuindo adiante parece que o caminho cristão é por ali mesmo: adiante!​

 

 

 

 

 

 

Pai e marido, o paulistano Lucas Freitas é advogado e em breve concluirá o Master of Arts com concentração em Estudos Interdisciplinares no Regent College. Prepara-se para o ministério pastoral.

 

 

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