Por que Educação Importa para Deus?

05.03.2020

 

A educação é uma esfera essencial da vida humana. Através dela nos preparamos para o mercado de trabalho, tornamo-nos melhores cidadãos, crescemos como pessoas ao desenvolvermos habilidades e competências, e formamos o nosso caráter. Embora nem sempre de forma eficiente ou coerente, a educação igualmente vital para a fé cristã, como atestam dois mil anos de história. Mas em que sentido uma educação pode ser cristã?

 

A expressão “educação cristã” geralmente refere-se à formação espiritual que acontece nas nossas igrejas através do culto infantil, catequese, Escola Dominical e programas de discipulado, ou à formação ministerial através de seminários e faculdades de teologia. Essas dimensões são importantes, mas o que dizer da educação “convencional”? Aquela que nos ensina a ler, escrever e fazer cálculos matemáticos? Que nos ajuda a entendermos o nosso contexto geográfico, histórico, e cultural e a desenvolvermos a coordenação motora e a criatividade? Será que essa educação também importa para Deus?

 

A educação está no cerne do que Deus quer para o seu povo e para toda a humanidade. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento insistem que as novas gerações do povo de Deus precisam assimilar e viver de acordo com “as palavras do SENHOR” e o “ensino dos apóstolos”. Podemos afirmar inclusive que a própria Bíblia Sagrada surgiu a partir dessa preocupação educacional, tanto por parte dos seus autores humanos quanto do seu Autor divino. Afinal, eventos históricos e leis foram registrados, sermões foram escritos, poemas e ditados foram compilados, cartas foram enviadas, visões foram narradas. Tudo isso porque Moisés, Jeremias, Davi, Paulo e João (entre outros) queriam nos ensinar. Para os cristãos, porém, esses textos também são o registro do que o próprio Deus quis nos dizer. Neles, Deus está se revelando a nós, educando-nos sobre quem Ele é e quem nós somos, bem como quais são seus propósitos para a humanidade.

 

A Bíblia revela Deus como o criador, mantenedor e resgatador de todas as coisas. Assim sendo, Ele não pode se interessar apenas por conversões e crescimento espiritual, mas necessariamente se alegra com tudo o que é bom, belo, útil e verdadeiro. Vemos no Salmo 104 que Deus se alegra em prover sustento para as suas criaturas e no Salmo 65 que a criação participa dessa alegria. Diante disso, o teólogo e filósofo Richard Mouw no seu livro He Shines in All That’s Fair: culture and common grace (Ele Brilha Em Tudo o Que é Bom: cultura e graça comum – trad. livre) comenta “Se Deus é glorificado pela sua criação não-humana… então parece razoável supor que Deus se alegre com esses fenômenos naturais não-humanos. Logo, é bastante plausível supor que Deus se alegre com várias questões humanas, mesmo quando são exibidos na vida de não-cristãos. […] O prazer de Deus nesses fenômenos naturais não vêm porque eles geram conversões. Deus gosta dessas coisas por elas mesmas.” Como cristãos, a nossa visão de educação não precisa ser proselitista, pois a narrativa bíblica sugere que todas pessoas, independentemente de gênero, etnia ou confissão religiosa podem e devem ser ensinados a desenvolverem a criação, a contribuírem para o bem comum, a servirem o próximo e a seguirem princípios éticos universais. Na medida em que o fizerem, trarão alegria a Deus e contribuirão positivamente para todos nós.

 

Contudo, a Bíblia não é apenas um livro, mas uma coleção de 66 livros, escritos por cerca de 40 autores distintos ao longo de pelo menos 1000 anos, em três línguas diferentes, numa ampla variedade de gêneros, da prosa à poesia. Uma religião ou fé, como o Cristianismo, que tem uma biblioteca como essa por fundamento tem que necessariamente valorizar a alfabetização, a gramática, a história, o aprendizado de idiomas, a literatura, etc. Carlos Magno (742–814), primeiro imperador do Sacro Império Romano, por exemplo, decretou a criação de um sistema de educação pública gratuita para formação intelectual e espiritual das crianças do seu reino. Até mesmo João Calvino (1509-1564), reformador protestante conhecido pela sua visão pessimista da humanidade, entendia que Deus promovia o bem comum através do esforço humano. Ele reorganizou o sistema educacional de Genebra, na Suíça, com um currículo que abrangia as ciências e as humanidades, além da teologia. Essa educação era aberta a todos, uma vez que cada ser humano é criado à imagem de Deus.

 

Muitos cristãos têm levado a sério a importância que Deus dá ao ensino-aprendizagem de objetos do conhecimento em todas as áreas da vida. Uma abordagem possível é a da “educação escolar cristã”, que se propõe que uma escola cristã ensine tudo o que uma não-confessional ensina, só que a partir de uma visão de mundo fundamentada nas Escrituras. Expandindo essa ideia, até mesmo professores cristãos que trabalham em uma escola “convencional”, seja pública ou privada, também podem promover uma educação digna da fé cristã. Isso é possível na medida em que olharem para o processo de ensino-aprendizagem através da lente da fé cristã e realinharem as suas práticas pedagógicas de acordo. Não precisamos de um texto bíblico específico para justificar cada conteúdo ou prática educacional, mas sim mergulhar na narrativa bíblica que fundamenta a forma como vemos e vivemos nossa fé no mundo. Deus se alegra com o florescimento humano e, por isso, se importa com a educação. Portanto, nós, portadores da Sua imagem, devemos fazer o mesmo.

 

Este texto é uma publicação conjunta com DIDAQUÊ: apoiando educadores cristãos. Para mais textos sobre a relação entre a fé cristã e educação, acesse www.didaque.net.

 

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